Especial UFJ: Mulheres que transformam a ciência

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A Universidade Federal de Jataí conta com muitas mulheres que são protagonistas no desenvolvimento de pesquisas nas mais variadas áreas. Ao longo deste mês de março iremos publicar a série especial de reportagens “Mulheres que transformam a ciência”, para valorizar as nossas pesquisadoras.

Embora a participação das mulheres na pesquisa brasileira tenha crescido nos últimos anos, chegando a cerca de 45% em algumas áreas, ainda há desafios significativos. Em campos como as engenharias e nos espaços de maior liderança acadêmica, como a Academia Brasileira de Ciências, a presença feminina permanece baixa, em torno de 17%. Dar visibilidade às pesquisadoras é reconhecer suas contribuições, fortalecer a equidade e inspirar novas gerações a ocupar todos os espaços do conhecimento.

Pele de tilápia como curativo cicatrizante

Na primeira reportagem, a UFJ destaca a pesquisa desenvolvida pela bióloga Juliana Flávia Paranaíba, técnica da UFJ e doutoranda no Programa de Ciência Animal, em Goiânia. Formada em Ciências Biológicas pela própria UFJ, onde também concluiu o mestrado, Juliana investiga o uso da pele de tilápia como biomaterial para curativos cicatrizantes, uma alternativa promissora para aplicações na área da saúde.


Juliana Flávia Paranaíba, pesquisadora e técnica da UFJ



O trabalho é orientado pelo professor Dr. Valcinir Aloisio Scalla Vulcani, que já desenvolve pesquisas com biomateriais. A investigação surgiu a partir da proposta de avaliar as propriedades da pele do peixe e verificar seu potencial de utilização como produto aplicado no tratamento de feridas.

Segundo Juliana, a pele da tilápia apresenta características que favorecem a utilização em curativos. “Ela é rica em colágeno tipo I, uma proteína que dá firmeza e sustentação aos tecidos do nosso corpo, o que contribui para o processo de cicatrização”, explica.

Durante a pesquisa, a pele passa por um processo de retirada das células e de despigmentação, etapa que melhora a aparência e a padronização do material sem comprometer sua estrutura natural. Mesmo após o processamento, o tecido mantém suas propriedades originais, importantes para aplicações na medicina regenerativa.

Inovação tecnológica

O objetivo inicial do estudo era realizar a caracterização da pele do peixe, avaliando sua viabilidade como biomaterial. No entanto, ao longo do projeto, a equipe alcançou um resultado inesperado: a possibilidade de clareamento da pele, o que representa um diferencial importante para aplicações comerciais.

“Por questões estéticas, o clareamento torna o material mais atrativo para uso como curativo, pois elimina o aspecto natural da pele do peixe”, explica a pesquisadora. Desde 2014, pesquisas conduzidas na Universidade Federal do Ceará já investigam o uso da pele de tilápia em curativos, porém mantendo sua aparência original.

Resultado final, com a pele de tilápia pronta para ser usada como curativo


Dois pontos importantes do estudo foram: a redução da carga genética do material e a eliminação da carga microbiana, processos que contribuem, respectivamente, para a redução da possibilidade de rejeição e redução dos riscos de inflamações durante a aplicação do curativo.

De acordo com Juliana, o método desenvolvido também se destaca pela simplicidade. “O processo tem uma rota curta, utiliza poucos compostos químicos e não degrada o material, mantendo suas propriedades e apresentando resultados positivos”, afirma.

A pesquisa também dialoga com a sustentabilidade. A pele de tilápia é um subproduto da tilapicultura, atividade que tem crescido no Brasil.  “Estamos desenvolvendo um produto que pode ajudar na área da saúde, tanto humana quanto animal e, além disso, nosso projeto também valoriza a sustentabilidade, porque reaproveitamos um subproduto da tilapicultura que muitas vezes seria descartado”, destaca Juliana.

A defesa do doutorado está prevista para o final de março e pode abrir caminho para novas possibilidades de aplicação do biomaterial. Para a pesquisadora, o trabalho científico é essencial para a construção de soluções para o futuro. “Não vejo um futuro sem a ciência. Pesquisas como esta, permitem pensar em avanços para a sociedade, com benefícios clínicos, redução do uso de curativos tradicionais, aceleração do processo de cicatrização e baixo custo”, afirma.

Mulheres pesquisadoras

Ao falar sobre a presença feminina na ciência, Juliana destaca o orgulho de ver cada vez mais mulheres ocupando espaços na pesquisa. “Quando vejo mulheres pesquisadoras em destaque é um orgulho muito grande. Trabalho com pesquisa desde o início da graduação e é uma paixão. Pesquisa é dedicação e persistência, é não desistir diante das dificuldades, para alcançar resultados que podem transformar a sociedade.”



Juliana Flávia Paranaíba, pesquisadora e técnica da UFJ




A série de reportagens seguirá ao longo do mês apresentando histórias de pesquisadoras da UFJ e mostrando como o trabalho desenvolvido por elas contribui para o avanço da ciência e para a melhoria da qualidade de vida da população.

Texto: Tássia Fernandes – Secom/UFJ