Missão técnica da UFJ à Argentina traz desdobramentos para ações em andamento na UFJ

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Entre os dias 10 e 15 de agosto, uma comitiva da Universidade Federal de Jataí (UFJ) esteve em Buenos Aires e La Plata, na Argentina, em missão técnica do projeto Praça da Ciência, do Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC-UFJ), com financiamento da FINEP. A viagem foi planejada em torno de cinco eixos: benchmarking de equipamentos interativos, observação de políticas públicas de comunicação científica, museologia e acessibilidade, estudo do modelo Mundo Nuevo UNLP e articulação de parcerias institucionais. No fim, acabou por se transformar em uma imersão que ultrapassou o previsto, trazendo desdobramentos que já extrapolam o projeto que a originou. Construída de forma multidisciplinar, a equipe técnica da missão reuniu representantes das áreas de Comunicação, Extensão e Educação Física.

Ciência e Descoberta

O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo” Manoel de barros

A primeira parada foi o Museo Participativo de Ciencias (MPC), em Recoleta, Buenos Aires: uma fundação independente com 38 anos de história, que faz da curiosidade científica um instrumento de revitalização territorial. Recebida por Germán Noceti, diretor executivo, e por Pablo, responsável pela construção das peças expositivas, a equipe da UFJ encontrou um museu que se sustenta sem vínculo com universidades. Segundo a própria equipe do MPC, a burocracia acadêmica dificultou esse tipo de parceria no passado. As referências que inspiram o museu vêm de fora do país, como o Exploratorium de São Francisco.

Apesar desse distanciamento declarado da universidade, o MPC trouxe muitas indagações à comitiva. Cada peça interativa ali nasce de um mesmo critério: “ser divertida, segura, robusta, fácil de manter e fiel ao conceito que a originou, equilibrando expectativa e surpresa”, explicou Germán Noceti na apresentação inicial do circuito.

Instalações como Burbujas, o radiômetro do espectro eletromagnético, os discos de ilusão de ótica de Benham, Newton e Torbellino, ou a mesa sensível ao toque Pixel, têm nomes pensados para dialogar com o currículo escolar argentino de forma lúdica. Além disso, o público infantojuvenil é declaradamente a prioridade. Fidelizar esse público ao longo dos anos também é uma estratégia de sobrevivência financeira, outro ponto levantado por Germán: “em baixa temporada, sorteios e promoções nas redes sociais mantêm o fluxo, e o acervo é renovado anualmente para não perder atratividade”.

Para o CDCC-UFJ, a lição do MPC é direta: boa parte dessas dinâmicas é replicável com baixo investimento em contratações externas, reforçando o valor da experiência interativa presencial, sem necessariamente depender de telas.

Registro fotográfico — Museo Participativo de Ciencias (MPC)

 

 

Na sequência, veio o Centro Cultural de la Ciencia (C3), vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia da Argentina e situado no Parque de las Ciencias. Romina, Marina e Toto receberam a comitiva em um espaço que faz da narrativa histórica da tecnologia sua porta de entrada. Ali, Toto e Romina, que fala português, trouxeram à equipe uma ideia central: para que um conhecimento se enraíze, a exposição nunca deve terminar em si mesma. É o caso da mostra sobre a história das tecnologias de comunicação, telefones e telégrafos, em que uma atividade convida o visitante a discar em uma lista telefônica real, complementada por uma peça teatral que amplia um dos temas em cartaz.

Três exposições marcaram a visita. Funga, sobre fungos, foi desenvolvida com dois artistas independentes contratados especialmente para a mostra, reunindo instalações com elementos táteis e luminosos, fungos vivos, uma escultura em filamento 3D e ambientes interativos. El Tiempo propôs uma reflexão multidisciplinar sobre a percepção do tempo, por meio de jogos e dinâmicas. El Azar explorou noções de estatística e probabilidade em atividades pensadas para pequenos grupos, estimulando a discussão entre pares.

Mas o C3, que traz uma parque aberto anexo, também expôs um desafio: a manutenção de uma estrutura física de grande porte, agravada pelo contexto orçamentário atual do país. Para a comitiva, essa realidade limita a transferência direta de algumas soluções estruturais do C3 para o cenário da UFJ e é mais um lembrete de que nem toda referência se traduz em modelo replicável. Para a UFJ, garantir a sustentabilidade das ações é um dos subsídios iniciais de qualquer projeto de desenvolvimento, sobretudo os de caráter estrutural.

Registro fotográfico — Centro Cultural de la Ciencia (C3)

 

Memória e acervos

O tempo não volta mas deixa vestígios

Enquanto o MPC ofereceu soluções de baixo custo e o C3 uma lição sobre curadoria sensível, foi em La Plata, no Mundo Nuevo UNLP, que a missão encontrou sua referência mais direta. Recebida pela Dra. Constanza Pedersoli e colegas, a equipe da UFJ visitou o programa vinculado à Universidade Nacional de La Plata, com convênios junto à Prefeitura e ao Ministério de Educação, Cultura e Artes local, e integrado à rede latino-americana e caribenha RedPop.

Registro fotográfico — Mundo Nuevo UNLP, La Plata

 

O modelo do Mundo Nuevo UNLP não se fixa em um único endereço. Com sede em um prédio cedido pela Prefeitura de La Plata, o programa se multiplica em ações itinerantes: ciência nas praças, peças de teatro, projetos de pesquisa e kits emprestados a escolas, sempre com o docente como mediador da experiência. Uma equipe enxuta: majoritariamente professores universitários com dedicação parcial, mais uma pessoa dedicada a design e comunicação, um programa de voluntariado aberto a estudantes de diferentes áreas e ainda alguma demanda por terceirização das etapas de execução, como transporte, montagem e hospedagem. Este é um formato operacional muito próximo ao que a própria UFJ já pratica em outros eventos.

A itinerância por proximidade chamou especial atenção: atividades de cerca de uma hora, realizadas em praças perto das escolas, combinadas previamente com os docentes conforme faixa etária e conteúdo curricular em curso se demonstrou como uma forma de reduzir a barreira burocrática do deslocamento das turmas até a sede fixa. Os custos de frete e logística ficam a cargo da instituição solicitante, mediante protocolo de parceria, e o uso de materiais de baixo custo, como peças em papelão, aparece como solução diretamente replicável para o CDCC-UFJ.

Entre todas as experiências acompanhadas na missão, o Mundo Nuevo UNLP se destacou como a referência de maior aderência ao papel que a UFJ pretende cumprir: não um espaço expositivo fixo, mas um agente fomentador da cultura de acesso à ciência.

Travessia

Os intervalos sem compromissos oficiais também renderam aprendizado. Deslocamentos de metrô e trem entre Buenos Aires e La Plata permitiram uma leitura complementar, social e histórica, da estruturação urbana das duas cidades, observações que a comitiva já registra como roteiro de apoio para missões futuras de perfil semelhante. A visita ao MALBA (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires) e à Instalação Maravillosa Alice, no Jardim Botânico de Buenos Aires, uma experiência imersiva que combina tecnologia, poética e imaginário em um percurso noturno de luz e projeção, completaram o giro cultural da missão, reforçando seu caráter formativo mesmo fora da agenda técnica.

Registro fotográfico — MALBA

 

Registro fotográfico — Instalação Maravillosa Alice, Jardim Botânico de Buenos Aires

 

Registro fotográfico — Passeio de trem/metrô entre Buenos Aires e La Plata

 

Perspectivas

A missão cumpriu os cinco eixos estratégicos previstos, com o Mundo Nuevo UNLP despontando como referência direta ao modelo educativo do CDCC-UFJ, e o Museo Participativo de Ciencias como fonte de soluções replicáveis de baixo custo. O Centro Cultural de la Ciencia, embora relevante do ponto de vista curatorial, deixou claro que nem toda estrutura de ponta é transferível a um orçamento como o disponível no momento em nossa instituição.

Os desdobramentos dessa missão não se restringem ao projeto que financiou a viagem. A missão abre a possibilidade de kits interativos itinerantes nos moldes do Mundo Nuevo UNLP, de baixo custo e emprestáveis a escolas; de um programa de itinerância por proximidade em praças, escolas e espaços públicos de Jataí; do mapeamento de fornecedores locais para terceirizar etapas operacionais; e de um programa de voluntariado aberto a estudantes de diferentes áreas.

Também ficamos com questionamentos importantes e norteadores sobre sustentabilidade financeira em períodos de baixa procura, inspiradas no modelo do MPC, e sobre a pertinência de buscar vinculação institucional à rede RedPop, da qual o Mundo Nuevo UNLP é integrante, como caminho de fortalecimento institucional.

A missão sugere ainda um cruzamento pouco óbvio à primeira vista: a documentação e custódia dos acervos científicos da universidade pode se tornar matéria-prima para futuras experiências expositivas do CDCC, enquanto o registro sistemático dessas trocas internacionais passa a servir de referência metodológica para a política de extroversão dos acervos, aliando custódia documental a comunicação pública da ciência.

Encabulados com as possibilidades que a ciência e a cultura têm de transformar um estado, um período, uma cidade, a equipe voltou em uníssono com os sentimentos renovados, prontos para dar corpo a novas ações e projetos que atravessam os mais diferentes eixos, extensão, cultura, comunicação, e perpassam tanto as ciências duras quanto as humanas. Talvez esse seja o real sentido do transver. Ao caminhar pelo jardim botânico nas instalações de Maravillosa Alice, a luz, projeção e som se combinam em um percurso noturno que transforma o invernáculo histórico e a fachada centenária do jardim em cenário de movimento, um convite a atravessar o espelho, como a personagem que dá nome à instalação, e enxergar o familiar sob uma luz nova.

Não por acaso, essa foi também a sensação recorrente da missão: cada espaço visitado revelou, sob a superfície do já conhecido, um território de possibilidades ainda a explorar. Se a Alice precisou cair na toca do coelho para redescobrir o mundo, a comitiva da UFJ encontrou, nesse mesmo gesto de o próprio sentido de uma missão técnica: não basta observar; é preciso se deixar atravessar pelo que se vê.

Gabriela Alves Campos – Produtora Cultural – Proece/UFJ

Nota da autora: Este texto foi construído com uso de recursos metafóricos e licença jornalística. O relatório oficial da missão permanece disponível para consulta. As falas citadas podem apresentar pequenas variações em relação ao que foi dito originalmente, por se tratarem de traduções livres do espanhol e do inglês.